Uma degustação de Beastro na semana do The Game Awards
Assim como preparar um prato caprichado, Beastro pega ideias bem diferentes, coloca tudo na mesma panela e consegue chegar a um resultado gostoso de jogar. Na semana do The Game Awards, passei cerca de uma hora com uma demonstração desse roguelike aconchegante de culinária e construção de baralho - e a experiência funcionou como uma boa amostra do “prato principal” prometido para o ano que vem.
Panko, Palo Pori e o espírito guardião Flambe
A história gira em torno de Panko, um subchefe que vive na pacata vila artesanal de Palo Pori. Um grande muro ao redor do povoado mantém do lado de fora a escuridão que se agita além dali - em especial os monstros que tomaram conta das áreas selvagens.
Quando o mentor de Panko desaparece, ele ganha uma ajuda inesperada: um espírito guardião chamado Flambe, uma chama viva com jeito de guaxinim. A graça está no desvio do “heroísmo” tradicional: em vez de sair para salvar a cidade, Panko precisa tocar um restaurante e alimentar o grupo de heróis conhecidos como Caretakers, que são os responsáveis por cruzar o muro e enfrentar a escuridão. Ao apoiar essa turma, Panko pode acabar chegando até o seu mestre perdido.
Rotina diária: coletar ingredientes e comandar o restaurante
A estrutura do dia a dia me lembrou Dave the Diver: cada dia é dividido em três partes. A manhã começa com um ritmo bem tranquilo, focado em juntar ingredientes antes de abrir as portas.
Gostei de caminhar pela vila - visualmente bem bonita - para pegar larvas e alimentar aves que lembram galinhas, pescar no píer e cuidar de uma horta com plantações. É o pacote clássico de jogo aconchegante, mas funciona como um respiro antes do corre-corre que vem com a administração do restaurante.
Com os ingredientes escolhidos em mãos, chega a hora de receber o público. Depois de definir o cardápio conforme o que você conseguiu coletar, cozinhar virou minha parte favorita. O preparo acontece por meio de minijogos com cara de atração de parque.
Eu picava legumes que desciam rapidamente por uma tábua comprida, num teste gostoso de tempo e precisão. Refogar pede que você gire a frigideira no ponto certo para impedir que a comida encoste em bolhas perigosas da panela. Já ferver envolve arremessar ingredientes como se fossem uma bola de basquete em três panelas diferentes, com as panelas destacadas rendendo pontuação maior (nota para iniciantes na cozinha: por favor, nunca joguem comida dentro de panelas com água fervendo). Depois de prontos, os pratos ainda precisam ser entregues depressa aos clientes. Até aqui, bem simples - mas os Caretakers têm preferências específicas e trazem uma camada estratégica a mais para montar receitas.
Caretakers, sabores e construção de baralho
Em cada serviço de jantar, um Caretaker chega com reserva, querendo uma refeição forte para aguentar as expedições além do muro. Na minha partida, um Caretaker simpático chamado Oyshi entrou pedindo algo que atendesse ao seu desejo bem específico por ovos.
Servir os Caretakers fortalece o baralho de cartas deles, que será usado depois para enfrentar monstros durante as incursões (já chego nisso). O primeiro passo é escolher a base da receita: você posiciona ingredientes em formatos tipo Tetris numa grade, e cada ingrediente traz um perfil de sabor.
Existem cinco sabores: Umami, Salgado, Azedo, Amargo e Doce. Além disso, cada sabor tem um “peso” que define o quanto ele influencia o perfil final.
Conforme você encaixa ingredientes, o sabor do prato muda, e o objetivo é montar um baralho que reflita os gostos e as aversões do Caretaker. Agradar o paladar deles pode render bônus de vida e de ataque, além de aumentar o nível de amizade. No fim, o baralho fica composto pelas cartas e habilidades obtidas ao comer. Na descrição, parece mais complexo do que realmente é - eu só senti que entendi de verdade quando o sistema foi aplicado no combate.
À noite: teatro de fantoches e combate roguelike
Quando o restaurante fecha, o dia passa para a parte da noite. Aí é hora de visitar um Caretaker - no meu caso, o Oyshi -, que reconta a aventura dele como um teatro de fantoches bem fofo. Isso dá início a uma jornada roguelike tradicional, com caminhos ramificados cheios de lutas e paradas intermediárias até o objetivo final.
As batalhas são por turnos. Os monstros jogam uma carta com um “naipe” de sabor (indicado por cor) e um valor numérico. Por exemplo: uma carta de Umami é verde. Para vencer, você precisa responder com uma carta do mesmo sabor e com número maior. Nesse exemplo, eu tinha de usar uma carta verde com valor acima.
Ao ganhar uma rodada, o perdedor perde pontos de vida conforme o meu poder total de ataque - um atributo separado, marcado por um símbolo de espada. O prato que servi ao Oyshi concedeu +3 de poder de ataque.
Também dá para enfraquecer cartas inimigas usando sabores que “equilibram” o deles. Aqui, cartas azuis equilibram as verdes, então jogar uma azul reduz o valor de pontos da carta verde. Do outro lado, você pode fortalecer certas cartas com base numa coordenação de cores parecida com as fraquezas/resistências de tipos em Pokémon.
Se isso parecer confuso (o que é compreensível), existe um diagrama tipo roda de cores que mostra claramente quais sabores fortalecem ou equilibram outros, facilitando a consulta. E, caso você não esteja com as cartas necessárias para ganhar uma rodada, dá para descartar a mão inteira e comprar cinco novas cartas, ou comprar apenas para preencher espaços vazios até voltar a ter cinco na mão. Por outro lado, enfrentar o inimigo com uma carta do sabor errado faz você tomar o dano completo do ataque dele.
Embora o combate tenha bastante coisa para assimilar, eu peguei o ritmo depois de um bom tempo avançando pelos caminhos do roguelike. Ainda assim, pelo menos nesse trecho inicial, ele foi a parte de que menos gostei em Beastro - mesmo reconhecendo que pode evoluir para algo mais envolvente.
Em compensação, curti muito mais o lado aconchegante de coletar ingredientes, ajudar os moradores e tocar o restaurante. A forma como essas atividades mais tranquilas vão crescer é crucial, porque o ciclo diário precisa se manter interessante e surpreendente para segurar o interesse por bastante tempo.
Beastro é um encontro criativo de ideias de jogabilidade, e eu torço para que a mistura fique tão rica e saborosa quanto os pratos do Panko quando o jogo chegar em 2026. E, se você não quiser esperar até lá, já existe uma demonstração na Steam para jogar agora mesmo!
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