Pular para o conteúdo

Pesquisa aponta que a aquicultura pode remover mais carbono do que emite

Pesquisador em roupas brancas analisa amostra perto de cultivo marinho com tanques circulares na água.

Alguns tipos de aquicultura conseguem retirar mais carbono do que emitem, enquanto outros geram emissões comparáveis às da pecuária em terra, segundo uma pesquisa recente.

O trabalho reposiciona os frutos do mar de cultivo como uma escolha dependente do clima - e fortemente influenciada pela espécie criada, pela ração utilizada e pelo desenho do sistema de produção.

Por dentro do mapa de pesquisas

Ao reunir evidências de 1.821 estudos no mundo todo, surge um padrão: diferentes combinações de insumos de ração, condições dos viveiros e consumo de energia levam a resultados climáticos muito distintos dentro da própria aquicultura.

Hong Yang, da Universidade de Reading, observou que o mesmo setor pode funcionar como fonte de carbono ou como sumidouro de carbono, a depender de como é conduzido.

Os dados indicam que sistemas sem alimentação direta - como os de moluscos (bivalves) e algas marinhas - frequentemente acumulam carbono, enquanto fazendas de peixes e camarões com uso intensivo de ração liberam muito mais gases de efeito estufa.

Essas diferenças também delimitam o alcance da conclusão: para entender o saldo final, é necessário identificar de onde vêm as emissões e de que forma práticas específicas alteram esse equilíbrio.

Onde as emissões começam

A maior parte do aquecimento associado ao setor aparece antes da colheita, quando os gases de efeito estufa - gases que retêm calor, gerados por atividades humanas e também por processos naturais - são emitidos por causa da ração, do combustível, da química dos viveiros, e da construção e manutenção da infraestrutura.

A ração costuma elevar as emissões porque, antes de os pellets chegarem à água, há gasto de energia com lavouras, uso de combustível na pesca, processamento industrial e transporte.

Na revisão analisada por Yang, a produção de ração respondeu por 52% das emissões em sistemas alimentados. Isso sugere que aprimorar a ração pode ser usado como uma ferramenta climática.

O lodo do viveiro importa

O fundo dos viveiros pode transformar sobras de ração em metano quando microrganismos atuam sem oxigénio.

O maior alerta recai sobre viveiros de água doce, pois sedimentos parados e ricos em matéria orgânica criam um ambiente favorável para esses microrganismos continuarem produzindo metano.

A análise indicou que o metano proveniente da aquicultura de água doce representou cerca de 90% do aquecimento total nesses sistemas.

A aeração pode reduzir essa liberação, já que mais oxigénio desacelera os produtores de metano e permite que outros microrganismos consumam o metano antes.

O papel de cada espécie

A espécie cultivada define grande parte do desempenho climático, começando pelos bivalves - moluscos como ostras, amêijoas e mexilhões, que filtram alimento diretamente da água.

Como os produtores não precisam fabricar ração para esses animais, as fazendas evitam uma das principais fontes de emissões do setor.

Na lagoa de Sacca di Goro, no norte da Itália - uma área costeira dedicada ao cultivo de moluscos - as conchas de amêijoas armazenaram 4,1 onças de dióxido de carbono por libra, enquanto a produção adicionou 0,35 onça de gases de aquecimento. Em unidades métricas, isso equivale a aproximadamente 256 g de CO₂ armazenado por kg e cerca de 22 g por kg de gases de aquecimento emitidos.

Um sumidouro de carbono é aquele que armazena mais carbono do que libera, mas o enterramento das conchas e a estabilidade no longo prazo ainda são decisivos para o saldo final.

Regiões com emissões elevadas

Uma estimativa de 2020 situou a aquicultura global em perto de 290 milhões de toneladas curtas (EUA) de CO₂ equivalente em 2017, o que corresponde a cerca de 263 milhões de toneladas métricas.

A China foi responsável por mais da metade dessas emissões, refletindo sua vasta base de viveiros de água doce e de produção costeira.

Índia e Indonésia vieram na sequência, em grande parte porque grandes sistemas de viveiros podem liberar metano, enquanto ração e eletricidade adicionam emissões adicionais.

Mesmo países com emissões totais baixas, como a Noruega, podem apresentar pegadas altas por kg quando transporte e energia são intensivos.

As escolhas de ração fazem diferença

Modificar a ração enfrenta o problema na origem, pois os pellets carregam emissões associadas a lavouras, fertilizantes, combustível na pesca e fábricas.

Uma conversão alimentar mais eficiente - usar menos ração para cada kg de peixe produzido - também reduz o desperdício que apodrece no sedimento.

No caso de salmão, camarão e bagre, dietas com alto teor de proteína podem aumentar as emissões do fabrico de ração antes mesmo de o animal chegar ao mercado.

Substituir farinha de peixe ou soja por ingredientes de menor carbono pode ajudar, mas o crescimento e a saúde dos animais ainda impõem limites.

Energia e transporte

O consumo de energia é a outra grande alavanca, sobretudo em fazendas que bombeiam, aquecem, refrigeram, filtram ou movimentam água continuamente.

Sistemas de aquicultura de recirculação - unidades em ambiente fechado que limpam e reutilizam a água - podem proteger habitats próximos, mas exigem fornecimento constante de energia.

O envio de frutos do mar frescos por longas distâncias em aviões pode anular ganhos obtidos na fazenda, já que aeronaves queimam combustível rapidamente.

Electricidade renovável, bombas mais eficientes e rotas de transporte mais lentas podem reduzir emissões sem alterar o que as pessoas comem.

Como desenhar fazendas de menor carbono

O desenho do sistema pode transformar resíduos em alimento quando peixes, moluscos e algas marinhas são criados em combinações cuidadosamente equilibradas.

A aquicultura multitrófica integrada - que cria espécies capazes de aproveitar resíduos umas das outras - permite que algas absorvam nutrientes dissolvidos e que bivalves filtrem partículas.

Com água mais limpa, é possível reduzir o óxido nitroso - um gás potente gerado durante o ciclo do nitrogénio - e, com menos lodo acumulado, há menos locais propícios à formação de metano.

A restauração de ecossistemas de carbono azul, habitats costeiros que guardam sedimentos ricos em carbono, também pode compensar danos anteriores quando fazendas substituem manguezais.

Falta de dados em algumas regiões

Para que as melhores escolhas se consolidem, ainda faltam números mais consistentes, já que as fazendas medem gases com instrumentos, limites e janelas de tempo diferentes.

A avaliação do ciclo de vida ajuda a comparar frutos do mar de forma mais justa, mas os métodos ainda variam muito. Na África, as evidências continuam mais escassas, e pequenas fazendas podem expandir antes que a contabilidade climática se torne uma prática rotineira.

“Esta revisão também destaca a falta de pesquisas em regiões como a África e ressalta a importância de adotar metodologias padronizadas para a medição de emissões e a avaliação do ciclo de vida”, escreveu Yang.

O impacto climático dos frutos do mar depende de decisões que podem ser ajustadas - incluindo a espécie criada, a ração, as fontes de energia, o manejo dos viveiros, o transporte e a proteção de habitats.

Com isso, a aquicultura não é inerentemente prejudicial nem automaticamente sustentável: trata-se de um sistema alimentar em que práticas e políticas mais inteligentes podem moldar as emissões de maneira significativa.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário