Carros elétricos foram vendidos como solução para melhorar o ar das cidades. A promessa era simples: sem escapamento, sem fuligem de diesel - e, portanto, pulmões mais limpos para quem mora perto de vias movimentadas.
Só que esse raciocínio vale apenas para a poluição ligada ao que acontece dentro do motor. Ele não inclui um tipo importante de emissão: a poluição gerada pelos pneus.
Na Alemanha, uma equipa passou 2 semanas a medir com precisão o que, de facto, fica suspenso no ar urbano. O que apareceu foi plástico invisível - não vindo de combustão, mas do desgaste de pneus de carros e camiões ao rolar no asfalto.
As medições em Leipzig
Para fazer o levantamento, os pesquisadores instalaram dois amostradores de ar de alto volume na Rua Torgauer, uma via arterial muito movimentada em Leipzig, no leste da Alemanha. Os equipamentos funcionaram durante as primeiras 2 semanas de setembro de 2022, recolhendo todas as partículas em suspensão com menos de 10 micrômetros.
O estudo foi conduzido pelo Prof. Hartmut Herrmann, químico atmosférico do Instituto Leibniz de Pesquisa Troposférica (TROPOS). A equipa queria identificar com exatidão o que compõe o pó que pedestres daquela rua respiram todos os dias.
Poluição plástica proveniente de pneus
Cada filtro passou por um método de “impressão digital” térmica: as partículas retidas são aquecidas até que a sua assinatura química seja detetada. Com isso, os cientistas conseguem separar plástico de fuligem, solo e pólen, polímero por polímero.
Cerca de 4 percent do material particulado capturado nos filtros era plástico. E não se tratava de contaminação residual: era um componente mensurável e repetível do ar.
A concentração total ficou em aproximadamente 0.6 microgramas de plástico por metro cúbico de ar ao longo das 2 semanas, com variações diárias, mas sem cair a zero em nenhum momento.
Predomínio do pó de pneus
Aproximadamente dois terços da poluição plástica encontrada nos filtros veio de uma única origem: desgaste de pneus. Carros e camiões libertam fragmentos microscópicos de borracha sempre que o pneu entra em contacto com o pavimento, e uma parte considerável desse material acaba em suspensão.
Os pneus de carros responderam pela maior parte do sinal. Os de camiões contribuíram com o restante, numa proporção bem menor. A contagem de veículos na região - cerca de 2 milhões de carros registados em 2022 - foi coerente com o que a química indicou.
Depois do pó de pneus, os maiores contributos foram de policloreto de vinila, polietileno e tereftalato de polietileno - polímeros associados, respetivamente, a tubulações, filme plástico e garrafas de bebidas. Todos apareceram de forma consistente em cada filtro analisado pela equipa.
Partículas finas e grossas
Os amostradores dividiram a recolha diária em duas faixas de tamanho: partículas mais grossas, com até 10 micrômetros, e partículas finas, com menos de 2.5. As duas categorias apresentaram quantidades de plástico aproximadamente iguais - um resultado que surpreendeu os pesquisadores.
Em geral, partículas maiores tendem a depositar-se mais depressa. Já as menores permanecem mais tempo no ar, viajam mais longe e penetram mais profundamente nos pulmões. Pesquisas anteriores já apontavam a abrasão de pneus como fonte importante de poluição urbana, mas nenhum estudo na Alemanha tinha separado os plásticos por tipo cobrindo, ao mesmo tempo, as duas faixas de tamanho.
Polímeros mais frágeis, como o policarbonato - usado em vidros de segurança e carcaças de eletrónicos - apareceram quase exclusivamente na fração fina.
A equipa suspeita que o intemperismo e a luz UV fragmentem esses materiais em pedaços cada vez menores antes de se tornarem aerotransportados.
Uma dose diária de poluição de pneus
Com base nas concentrações medidas no ar e em taxas de respiração conhecidas para adultos, os pesquisadores estimaram que uma pessoa em Leipzig inala cerca de 2.1 microgramas de plástico por dia ao ar livre - uma quantidade pequena demais para ser percebida sem equipamento de laboratório, mas presente em cada inspiração.
Cerca de metade dessas partículas é pequena o suficiente para alcançar as partes mais profundas do pulmão. Em um ano, a soma diária chega a aproximadamente 0.7 miligramas - impossível de notar pelos sentidos, mas contínuo.
Estudos comparáveis em Xangai e Quioto relataram cargas de plástico no ar mais altas. Em Graz, na Áustria, os valores ficaram mais baixos. Padrões locais de tráfego, condições meteorológicas e os próprios métodos analíticos influenciam fortemente os resultados.
Risco para a saúde associado à poluição de pneus
Ao aplicar um modelo padrão de risco à saúde desenvolvido para poluição do ar por partículas finas, a equipa converteu a dose diária em estimativas de mortalidade.
Segundo o cálculo, inalar essa quantidade de plástico aumenta o risco de morte cardiovascular em 9 percent e o risco de morte por cancro do pulmão em 13 percent.
Esses números são modelados, não observados. Eles dependem de pressupostos sobre como partículas de plástico se comportam dentro do corpo - e uma revisão recente destacou que esse ponto ainda não está resolvido.
Antes deste trabalho, não havia medições equivalentes na Alemanha que servissem de base concreta para tais pressupostos.
“Com cerca de dois terços dos microplásticos a virem da abrasão dos pneus, isto mostra que é preciso agir e que o problema do pó fino não pode ser resolvido apenas com a mudança para a mobilidade elétrica”, disse Herrmann.
Para além do escapamento
O resultado contraria uma crença conveniente: a de que trocar motores a combustão por baterias resolve a poluição do ar nas cidades. Carros elétricos também gastam pneus. E baterias mais pesadas podem até acelerar esse desgaste.
Na Europa, reguladores começaram a incluir limites de emissões de pneus em futuros padrões para veículos, mas as regras medem o que sai do pneu numa pista de teste - não o que permanece suspenso no ar a várias ruas de distância.
Os dados de Leipzig oferecem aos formuladores de políticas um valor concreto: aproximadamente 4 percent do pó que paira sobre uma via muito movimentada é plástico, em massa. E a maior parte dele veio dos pneus.
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