O ar-condicionado passou a ser indispensável em ondas de calor extremo. Ele permite que as pessoas trabalhem com mais segurança, ajuda as crianças a dormirem melhor e protege idosos do perigoso estresse térmico.
Em muitas cidades tropicais, ter refrigeração já não é visto como luxo. Na prática, tornou-se um recurso básico de sobrevivência.
Só que existe um efeito colateral. Quanto mais a população depende do resfriamento privado para escapar do aumento das temperaturas, menor pode ser a disposição para apoiar mudanças maiores - aquelas capazes de reduzir o calor em bairros inteiros.
Esse desconforto está no centro de um novo estudo de Singapura, em que os pesquisadores observaram que o ar-condicionado pode estar, de forma silenciosa, alterando como as pessoas reagem aos problemas climáticos ao seu redor.
O comportamento humano limita a ação climática
A questão não se resume a conforto. Cidades em todas as regiões estão aquecendo rapidamente por causa das mudanças climáticas.
E o cenário piora com o efeito de ilha de calor urbana - quando concreto, asfalto e construções muito próximas retêm calor por horas, mesmo depois do pôr do sol.
Em alguns locais, a temperatura noturna quase não cai. Com isso, o uso de aparelhos de ar-condicionado acaba liberando mais calor para a atmosfera.
Pesquisadores da Universidade de Tecnologia e Design de Singapura e do Centro Singapura-ETH chamam esse padrão de “isolamento comportamental”.
A lógica é direta: quando as pessoas conseguem se proteger do calor dentro de casa, a pressão para apoiar soluções públicas mais amplas tende a enfraquecer.
O uso de ar-condicionado está aumentando
Para investigar o tema, a equipe analisou respostas de questionários de 967 adultos, distribuídos em 416 domicílios em Singapura. Também foram avaliados o consumo de eletricidade nas residências e as condições de calor em diferentes bairros.
Os resultados apontaram uma diferença nítida entre percepção e prática.
Quem se sentia muito afetado pelo calor tinha maior probabilidade de falar sobre questões climáticas e incentivar outras pessoas a se importarem. Ainda assim, essa preocupação quase nunca se convertia em menor gasto de energia dentro de casa.
Famílias que dependiam bastante do ar-condicionado consumiam mais eletricidade e tinham menor chance de adotar hábitos de economia de energia.
“Uma das principais conclusões é que vivenciar o calor não se traduz automaticamente em um comportamento de menor consumo de energia ou em uma ação climática coletiva mais forte”, afirmou a Dra. Natalia Borzino, autora principal do estudo.
“As pessoas podem ficar mais conscientes do clima e mais vocais sobre o calor, ao mesmo tempo em que continuam dependendo muito de um resfriamento intensivo em energia para lidar com o dia a dia.”
Esse ponto importa porque a demanda por refrigeração está crescendo no mundo todo.
A Agência Internacional de Energia (IEA) alerta que o ar-condicionado pode se tornar um dos maiores motores do aumento da demanda de energia nas próximas décadas.
A expectativa é de que o crescimento seja especialmente forte na Ásia, na África e no Oriente Médio.
Com o aumento da renda e a melhoria do padrão de vida, milhões de domicílios devem comprar aparelhos de ar-condicionado pela primeira vez.
O problema do lado de fora da porta de casa
Singapura ofereceu um cenário especialmente útil para observar essa dinâmica. O país é denso, úmido, altamente urbanizado e amplamente refrigerado com ar-condicionado.
As condições locais podem servir como uma prévia do que outras cidades em aquecimento podem enfrentar em breve.
Os pesquisadores identificaram que bairros mais quentes consumiam mais eletricidade principalmente porque seus moradores usavam mais refrigeração.
Assim, o ar-condicionado virou o principal elo entre o aumento do calor urbano e a alta na demanda de energia.
O uso intenso de resfriamento também reduziu o apoio a iniciativas públicas voltadas a diminuir a temperatura nas áreas externas, como plantio de árvores, passagens sombreadas e bairros mais verdes.
Ao mesmo tempo, muitos domicílios continuaram dispostos a gastar mais para melhorar o conforto dentro de casa.
Presos em um ciclo vicioso
Isso cria um ciclo difícil de romper. Quanto mais as cidades aquecem, mais os moradores buscam resfriamento privado.
E quanto mais o resfriamento privado “funciona” para aliviar o desconforto imediato, menos urgência as pessoas podem sentir para cobrar soluções comunitárias de maior escala.
“O calor não é apenas um desafio de temperatura. Ele também é um desafio comportamental e de planejamento”, disse o professor Samuel Chng.
“Se as cidades dependerem demais do resfriamento privado, correm o risco de consolidar uma demanda de energia mais alta e, ao mesmo tempo, enfraquecer o apoio coletivo necessário para soluções urbanas mais amplas contra o calor.”
Resfriar as cidades, e não apenas os edifícios
Os autores evitam retratar o ar-condicionado como o vilão. Em climas tropicais, resfriar ambientes protege a saúde e o bem-estar. Durante calor extremo, isso pode salvar vidas.
Ainda assim, o estudo defende que as cidades não podem tratar o ar-condicionado como a única resposta.
Urbanistas sabem há muito tempo que sombra, árvores, ventilação, materiais refletivos e um desenho viário mais inteligente conseguem reduzir a temperatura em bairros inteiros.
Telhados verdes e parques ajudam a diminuir o calor nas superfícies. Um fluxo de ar melhor entre edifícios reduz o aprisionamento de calor. Até vias e coberturas de cor mais clara podem refletir a luz do sol, em vez de absorvê-la.
Adaptação individual e resiliência coletiva
Essas intervenções atuam de modo diferente do ar-condicionado. Em vez de resfriar um apartamento por vez, elas reduzem a exposição ao calor para todas as pessoas no espaço público.
“Esta pesquisa mostra que a adaptação não é apenas uma questão técnica ou de infraestrutura. Ela é fundamentalmente social e comportamental”, afirmou o Dr. Harvey Neo.
“O desafio para as cidades é desenhar sistemas em que a adaptação individual e a resiliência coletiva se reforcem mutuamente, em vez de seguirem em direções opostas.”
Um alerta para cidades em crescimento
Hoje, muitas cidades ainda têm acesso relativamente baixo ao ar-condicionado. Mas essa realidade está mudando rapidamente.
Com o aumento das temperaturas e o barateamento das tecnologias de refrigeração, espera-se que bilhões de pessoas comprem aparelhos de ar-condicionado nas próximas décadas.
Países que já enfrentam verões brutais vêm registrando demanda recorde de eletricidade nos meses mais quentes. Em algumas regiões, as redes elétricas estão tendo dificuldade para acompanhar.
O estudo de Singapura indica que a conversa sobre resfriamento precisa ir além dos aparelhos.
Manter as pessoas seguras durante ondas de calor extremo é essencial. Mas também é crucial construir cidades onde a população fique menos exposta, desde o início, a temperaturas perigosas.
Caso contrário, o futuro pode significar mais ar-condicionado, maior consumo de energia, ruas mais quentes e menos apoio público a mudanças capazes de tornar a vida urbana mais habitável para todos.
O estudo completo foi publicado na revista Cidades Sustentáveis e Sociedade.
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