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Estudo em Barcelona liga “sem BPA”, bisfenol S e ftalatos a sinais na placenta

Mulher grávida em vestido branco segurando a barriga com ilustração do feto dentro do útero.

Durante anos, plásticos vendidos como opções mais seguras foram, sem muito alarde, ocupando espaço nas prateleiras e dentro dos armários das cozinhas.

A expressão “sem BPA” virou argumento de venda quase de um dia para o outro. À medida que cresciam as preocupações com o bisfenol A, fabricantes passaram a retirá-lo de garrafas de água, recipientes para alimentos e produtos para bebés.

No lugar, entrou o bisfenol S - um substituto que chegou ao mercado com bem menos atenção e com uma base de testes muito mais limitada.

Um estudo recente avaliou esses compostos em conjunto em mulheres grávidas e encontrou sinais de que os efeitos podem alcançar até a placenta.

Acompanhando a exposição do dia a dia

A equipa de investigação foi liderada por Bethany Knox, pesquisadora em saúde ambiental do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal).

O estudo acompanhou 734 mulheres grávidas em Barcelona, na Espanha, recrutadas entre 2018 e 2021.

Os investigadores quantificaram no xixi mais de 40 rastros químicos, incluindo metabolitos de ftalatos, parabenos, alguns pesticidas, retardadores de chama e bisfenol S.

Esse conjunto de substâncias, conhecido como disruptores endócrinos, pode interferir no sistema hormonal mesmo em doses muito baixas. A absorção ocorre por alimentos, pela pele e também pelo ar.

Grande parte dos estudos anteriores avaliava um composto por vez, mas a exposição fora do laboratório envolve muitos químicos simultaneamente. Por isso, a equipa de Knox reuniu amostras de urina acumuladas ao longo de uma semana nas 18 e 34 semanas de gestação.

Como os ftalatos e compostos relacionados são metabolizados em poucas horas, uma única amostra pode não capturar a maior parte da exposição. Ao usar amostras agrupadas, o estudo conseguiu suavizar picos e intervalos de baixa detecção.

Para que serve a placenta

A placenta não funciona apenas como uma barreira entre mãe e bebé. Ela também é um órgão ativo, que produz hormonas e estimula a formação de novos vasos sanguíneos.

Com o avanço da gestação, o crescimento desses vasos - a angiogênese - é o que garante o aporte de nutrientes ao feto. Duas proteínas ajudam a manter esse processo equilibrado. O fator de crescimento placentário favorece a formação de novos vasos.

Já uma segunda proteína, chamada sFlt-1, atua como freio. Quando essa segunda passa a predominar sobre a primeira, o fornecimento de sangue ao feto piora.

Na prática clínica, médicos já usam o equilíbrio entre essas duas proteínas como marcador de rastreio para pré-eclâmpsia.

Trata-se de uma condição perigosa de pressão arterial elevada, capaz de interromper a gestação precocemente. Um grande ensaio clínico validou essa abordagem para uso rotineiro na assistência.

Indícios ligados aos ftalatos

O sinal mais consistente apareceu com os ftalatos usados em champôs, loções e produtos de limpeza doméstica. Em geral, mulheres com níveis mais altos desses compostos no xixi tendiam a ter bebés menores ao nascer.

Uma revisão anterior já sugeria esse padrão, mas a maioria dos trabalhos analisava um ftalato de cada vez. Nesta nova análise, a relação permaneceu quando as substâncias foram tratadas como uma mistura, mais próxima do que ocorre na vida real.

A redução do peso ao nascer foi pequena em cada gestação individual. Porém, em escala populacional - com milhões de gestações por ano - até um leve deslocamento para baixo pode gerar impacto acumulado.

Um aumento inesperado

Bebés de mães com níveis mais altos de compostos organofosforados no fim da gravidez tenderam a nascer com mais peso, e não menos. Esse grupo inclui alguns pesticidas e retardadores de chama.

Isso não foi interpretado como uma boa notícia. Pesticidas organofosforados podem chegar a frutas e legumes, e pessoas que consomem mais desses alimentos costumam apresentar maior exposição.

Ao mesmo tempo, uma dieta rica em frutas e legumes também favorece um ganho de peso fetal saudável. Assim, é provável que os compostos estivessem “a reboque” de hábitos alimentares melhores.

Por isso, os autores destacam que essa associação precisa ser esclarecida - e não comemorada.

Seguindo o fluxo sanguíneo

As misturas de ftalatos não se associaram apenas a bebés menores. Elas também acompanharam alterações no fluxo sanguíneo da placenta e um desequilíbrio entre as duas proteínas envolvidas na formação de vasos.

Ou seja: os químicos não apareceram somente no desfecho ao nascimento, mas também nas medições placentárias que podem representar o caminho entre exposição e crescimento fetal.

Estudos observacionais conseguem mostrar que dois fatores variam juntos, mas não provam que um cause o outro.

Ainda assim, encontrar no mesmo conjunto de dados os químicos, o sinal placentário e o resultado de crescimento reforça a hipótese de a placenta atuar como intermediária.

Para além de um químico por vez

A maioria das regulações existentes avalia um composto de cada vez. Na realidade, o corpo de uma gestante está a processar dezenas - e, por vezes, mais - ao mesmo tempo.

A equipa trabalhou com um painel alinhado a prioridades regulatórias europeias, incluindo substitutos mais recentes cuja segurança ainda não está totalmente estabelecida.

É o caso de substâncias encontradas em produtos de higiene pessoal, alternativas ao plástico tradicional e móveis com tratamento químico.

“Nosso objetivo foi refletir melhor as exposições do mundo real e entender como essas misturas podem influenciar tanto a placenta quanto o desenvolvimento fetal”, disse Knox.

Mudanças no horizonte

Há muito tempo se suspeita que químicos do quotidiano possam influenciar o crescimento fetal.

O que ainda não tinha sido demonstrado era o encadeamento entre exposição, alterações na placenta e tamanho ao nascer. Este estudo desenha essa ligação numa mesma população.

Do ponto de vista de saúde pública, o recado é abandonar o modelo de regulação focado em um químico por vez e aproximar as avaliações do modo como as pessoas realmente vivem.

Para a prática clínica, surge a questão de se o teste placentário já usado no cuidado da pré-eclâmpsia poderia, no futuro, também sinalizar gestações potencialmente afetadas pela exposição a químicos.

Ftalatos e compostos semelhantes não são raridades confinadas a ambientes industriais.

Eles estão no banheiro, na cozinha, no armário, no carro. Isso os torna fáceis de encontrar - e difíceis de ignorar.

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