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Genomas revelam três populações de pinguim-de-olho-amarelo e por que o YPGV mata filhotes no continente

Dois pesquisadores analisam amostras perto de pinguins-imperadores e filhote em ambiente costeiro rochoso.

O pinguim-de-olho-amarelo (Megadyptes antipodes) convive há anos com um número dramático de casais reprodutores - restam apenas algumas centenas. Para quem trabalha com conservação, as ameaças são bem conhecidas e têm “nome e sobrenome”: predadores introduzidos, redes de pesca e o aquecimento do mar. Um vírus, porém, não fazia parte da lista inicial.

A partir de 2019, a morte de filhotes por uma doença respiratória nova empurrou a população do continente para ainda mais perto do colapso. O mais intrigante é que pinguins de ilhas subantárticas remotas abrigam exatamente o mesmo vírus - e, lá, os filhotes não apresentaram o mesmo desfecho. A explicação, ao que tudo indica, vai além do próprio agente infeccioso.

Três populações, não duas, do pinguim-de-olho-amarelo

Conhecido em te reo Māori como hoiho, o pinguim-de-olho-amarelo é um dos pinguins mais raros do planeta. No total, há menos de 3,000 indivíduos, e somente cerca de 115 pares reprodutores persistem no continente da Nova Zelândia.

Por muito tempo, a ciência tratou essas aves como se formassem uma única população: ao norte, os indivíduos do continente; ao sul, os animais distribuídos pelas ilhas subantárticas de Auckland e Campbell.

Para entender se a doença estaria atingindo apenas “metade” do conjunto, a professora Jemma Geoghegan e colegas, da Universidade de Otago, sequenciaram 249 genomas de pinguins-de-olho-amarelo ao longo de toda a área de ocorrência da espécie. O retrato simples de dois grupos não se sustentou.

Uma separação muito mais antiga

Os pinguins do continente são geneticamente diferentes dos dois grupos insulares - e, além disso, as duas populações das ilhas também se distinguem entre si. Na prática, são três populações separadas, com intercruzamento praticamente inexistente.

Essas divisões não são recentes. A linhagem do norte se separou das populações do sul em algum ponto entre 5,000 e 16,000 anos atrás.

Já as aves de Campbell e da Ilha Enderby divergiram mais tarde, mas ainda muito antes da chegada de navegadores polinésios à Nova Zelândia, por volta de 1,250 EC.

Trabalhos anteriores - baseados em um único marcador de DNA mitocondrial e em um registro fóssil limitado - haviam sugerido que a colonização do continente teria ocorrido há apenas 500 anos. Os dados de genoma completo apontam para uma história bem diferente.

O vírus só mata alguns filhotes

Voltando aos filhotes que morrem: o vírus associado a esses óbitos é chamado gyrovírus do pinguim-de-olho-amarelo (YPGV). As necropsias indicam pulmões encharcados, hemorragia e tecido imunológico reduzido.

O detalhe decisivo é que o vírus está amplamente distribuído entre as populações. Testes de PCR o detectaram em adultos e filhotes saudáveis nos três grupos. Então por que ele se torna letal apenas para filhotes do continente?

As varreduras genéticas encontraram um padrão específico. As aves do sul exibem arranjos incomuns perto de genes ligados à formação e ao funcionamento de cílios - estruturas semelhantes a pelos que revestem o trato respiratório e ajudam a expulsar microrganismos inalados. Essas mesmas regiões aparecem com configuração diferente nos pinguins do continente.

Marcas no genoma

Ao comparar geneticamente filhotes doentes e saudáveis, os pesquisadores destacaram genes candidatos. O sinal mais forte foi o da pericentrina, uma proteína que, em alguns casos, é explorada por vírus para se deslocarem em direção ao núcleo da célula.

Outro possível envolvido é uma proteína da qual diversos vírus dependem para se espalhar. Um terceiro candidato participa do “alarme” do organismo quando uma infecção acontece - e, se esse alarme dispara de modo inadequado, a resposta passa a agredir o tecido em vez de eliminar a ameaça.

Um estudo anterior havia identificado o vírus dos pinguins apenas alguns anos atrás. Até agora, porém, não se sabia quais genes do próprio pinguim poderiam definir se um filhote sobreviveria. A partir deste trabalho, há vários alvos para testar.

Trabalhando com Ngāi Tahu

A pesquisa foi realizada em parceria com Ngāi Tahu, o povo indígena que detém a responsabilidade de guardiões (kaitiakitanga) sobre esses pinguins na Nova Zelândia. A equipe propõe o reconhecimento formal de três subespécies, cada uma com um nome em Māori ligado à geografia de sua região.

Essas denominações não são meramente simbólicas. Por cinquenta anos, políticas de conservação foram orientadas pela ideia de que os três grupos compunham uma única espécie tratada como uma unidade. Reconhecer três linhagens distintas, em vez disso, muda o quadro inteiro.

Complicações para planos de resgate

Uma proposta discutida discretamente há anos é a do resgate genético: trazer aves das populações insulares, que estão em melhor situação, para cruzar com o grupo do continente, na expectativa de que a entrada de novos genes aumente as taxas de sobrevivência.

As novas evidências tornam esse caminho menos simples. Os pinguins do continente seguem uma trajetória evolutiva própria há até 16,000 anos. Cruzá-los com aves das ilhas pode provocar depressão por exocruzamento, quando a prole acaba menos adaptada do que qualquer um dos pais.

Diante disso, qualquer intervenção passa a exigir uma avaliação muito mais cuidadosa. Promover cruzamentos entre aves que evoluíram separadas por milhares de anos está longe de ser uma decisão trivial.

O que ainda falta descobrir

Pela primeira vez, os pesquisadores dispõem de genes candidatos concretos que podem ajudar a entender por que uma população de pinguins está sucumbindo a um vírus que seus parentes parecem tolerar.

Agora, experimentos em laboratório podem verificar se essas vias imunológicas reagem de maneira diferente entre aves do continente e das ilhas. Para veterinários que tratam filhotes doentes, surgem novos pontos de intervenção.

A subespécie do continente tem por volta de 115 pares reprodutores restantes. Sem ações, escreve a equipe, essa linhagem pode desaparecer em até 20 anos. Dados genômicos, sozinhos, não vão salvá-la - mas, a partir de agora, conservacionistas entendem com mais precisão o que, de fato, estão tentando preservar.

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