Neste momento, uma onda de calor fora do comum em abril e maio está castigando grandes áreas da Índia.
As temperaturas passaram de 46°C no noroeste e no centro do país; escolas foram fechadas, hospitais criaram alas dedicadas a casos de insolação e o governo emitiu alertas de calor.
Normalmente, tratamos ondas de calor como uma crise de saúde - quase 490,000 pessoas morrem de calor no mundo a cada ano.
Só que esse número não dá conta dos efeitos destrutivos do calor extremo no cotidiano das mulheres - impactos que não aparecem nas estatísticas de mortalidade.
Uma revisão de pesquisas que realizamos, reunindo exemplos da Oceania, da África e da Ásia, mostra que quem precisa se adaptar de forma mais intensa costuma ser justamente quem mais fica fora do radar das políticas climáticas.
Calor no trabalho e em casa
A maneira como o calor é vivido costuma ter recortes de gênero. Em muitos lugares, as tarefas que o calor extremo interrompe não são aleatórias: elas são definidas social e culturalmente.
Em diversas regiões da África, da Ásia e da Oceania, por exemplo, mulheres assumem a maior parte do cuidado doméstico. Isso frequentemente as obriga a permanecer mais tempo dentro de casa do que os homens, em moradias pouco ventiladas, sem isolamento térmico ou refrigeração - um cenário que gera desgaste físico e sofrimento mental.
Esse quadro evidencia como o calor extremo vai corroendo o bem-estar das mulheres de formas que ultrapassam, e muito, a dimensão estritamente médica.
No trabalho, a segregação por gênero também determina a exposição ao calor. Estudos na Índia e em Bangladesh indicam que a falta de saneamento adequado em ambientes informais de trabalho pesa de maneira especialmente dura sobre as mulheres durante períodos de calor extremo.
Algumas passam a ingerir menos água para evitar banheiros insalubres, o que favorece a desidratação e abre caminho para outros problemas de saúde.
Na Índia e nas Maldivas, normas culturais e religiosas exigem que mulheres usem mais roupas do que homens, aumentando a sensação de calor e o desconforto.
Não se trata de meros incômodos: esses fatores somam camadas de exposição que moldam, de forma concreta, como as mulheres atravessam dias muito quentes.
Calor extremo remodela mundos sociais
Durante ondas de calor, em muitos contextos tropicais, mulheres tendem a ficar mais dentro de casa - e isso estreita suas conexões sociais.
Pesquisas em Burkina Faso mostram que o calor intensifica o isolamento de mulheres grávidas, enfraquecendo o vínculo com amigas e familiares que são centrais para o seu bem-estar.
O calor também influencia a forma como as mulheres se enxergam.
No interior do Quênia, gestantes que tiveram dificuldade para realizar tarefas ao ar livre em meio ao calor extremo relataram sentir que eram vistas como "fracas" ou "preguiçosas". Isso foi um golpe importante em comunidades onde o valor de uma mulher está associado ao cumprimento de expectativas domésticas.
Além disso, há evidências consistentes de que temperaturas mais altas aumentam o risco de violência física de homens contra mulheres. Em Camarões, mulheres sofrendo com calor extremo dentro de casa tiveram quase três vezes mais chance de relatar aumento da violência doméstica.
Em Bangladesh, Camboja e Nepal, ondas de calor foram associadas a elevação do casamento infantil, quando famílias em dificuldade impõem uniões às filhas para aliviar o aperto financeiro e reduzir custos do domicílio. Essas uniões muitas vezes resultam em menor segurança e menos poder para meninas e jovens mulheres, enfraquecendo sua sensação de proteção.
Mulheres já estão se adaptando
Ajustar-se a um mundo cada vez mais quente exige ação coordenada de pessoas e instituições. Mas as mulheres não estão esperando as políticas chegarem - elas já vêm se adaptando com criatividade, muitas vezes sem apoio institucional.
Em assentamentos informais de Ahmedabad, na Índia, mulheres pintaram os telhados de branco e usaram cascas de coco e restos de papel para montar coberturas mais frescas.
Em Bangladesh, elas construíram cômodos sombreado e ventilados anexos às casas, capazes de oferecer proteção contra o sol e privacidade, além de funcionar como pontos de encontro para reuniões comunitárias.
Em Jacarta, mulheres organizaram áreas coletivas com sombra que operam como centros informais de resfriamento.
Essas são "adaptações do dia a dia": práticas pequenas, de base comunitária, que surgem da rotina - e não de programas institucionais. Elas expressam como muitas comunidades de baixa renda lidam com o calor.
E, com frequência, cumprem várias funções ao mesmo tempo, como reduzir a temperatura, fortalecer vínculos sociais e estimular a construção comunitária.
O que precisa mudar
Políticas de adaptação climática precisam parar de tratar o calor como um desafio neutro em relação a gênero. O que nossa pesquisa mostra é que o calor afeta de maneiras diferentes o bem-estar de mulheres e homens.
Essas diferenças não são explicadas apenas pela biologia, mas também por cultura, relações de poder e pelos cruzamentos entre classe social, casta e condição migratória.
E, de forma decisiva, mulheres não são apenas vítimas passivas do calor. Ainda assim, suas práticas cotidianas permanecem, em grande parte, invisíveis para as instituições que desenham respostas climáticas.
Formuladores de políticas deveriam reconhecê-las e apoiá-las. À medida que ondas de calor se tornam mais frequentes e intensas, as mulheres que pintam telhados de branco ou criam espaços mais frescos para reuniões comunitárias em Bangladesh já estão apontando caminhos.
Febe De Geest, Pesquisadora em Geografia Humana, Universidade de Melbourne; e Sergio Jarillo, Pesquisador em Adaptação às Mudanças Climáticas, Universidade de Melbourne
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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