Não importa de onde você venha ou qual seja a sua bagagem cultural: cerca de 90% das pessoas são destras.
Você já se perguntou o motivo?
Uma pesquisa recente indica que essa preferência começa lá atrás, nos nossos ancestrais hominíneos. A ideia é que passámos a favorecer uma mão em vez da outra porque andamos sobre duas pernas - e, com cérebros maiores, a mão direita acabou tornando-se a lado preferido.
Isso significa que não é só o Homo sapiens que apresenta inclinação. A equipa estima que os Neandertais também eram, em grande parte, destros e que, de modo geral, quanto mais distante um parente está de nós na árvore evolutiva, mais fraca tende a ser essa preferência.
“Este é o primeiro estudo a testar várias das principais hipóteses sobre a lateralidade humana num único enquadramento”, afirma Thomas Püschel, antropólogo evolutivo da Universidade de Oxford, no Reino Unido.
“Ao analisar muitas espécies de primatas, conseguimos começar a distinguir quais aspetos da lateralidade são antigos e partilhados e quais são exclusivos dos humanos.”
Trabalhos anteriores já tinham mostrado que ser canhoto ou destro é, em grande medida, determinado pela genética - e que fetos exibem uma preferência já por volta da oitava semana de gestação.
Ainda assim, a história vai muito além da influência do seu pai. Evidências arqueológicas, divulgadas pela primeira vez em 2016, sugerem que hominíneos já favoreciam a mão direita há cerca de 1,8 milhão de anos.
Por que 90% são destros?
No novo estudo, cientistas de Oxford e da Universidade de Reading (também no Reino Unido) procuraram esclarecer como, quando e por que essa preferência surgiu.
Ao longo do tempo, foram propostas várias explicações: a destreza poderia ter começado com o uso de ferramentas, com a descida das árvores, com o início do andar ereto ou em paralelo a mudanças biológicas como massa corporal e tamanho do cérebro.
Primatas, cérebro e bipedalismo: o que o estudo modelou
Como ponto de partida, a equipa realizou uma meta-análise com dados de mais de 2.000 indivíduos, abrangendo 41 espécies de macacos e símios, incluindo humanos. Em seguida, os resultados foram analisados por modelos que incorporam as relações evolutivas entre as espécies.
O objetivo era detetar se existia viés para uma mão em detrimento da outra - e medir quão forte seria essa tendência.
Para a maioria das espécies, surgiram poucos indícios de uma preferência consistente. Os humanos, porém, destoaram claramente do padrão, exibindo uma forte inclinação para a mão direita.
O único caso com viés ainda mais acentuado para a direita foi o langur-de-java-oriental (Trachypithecus auratus). Já os orangotangos e os macacos-de-nariz-arrebitado mostraram uma leve preferência pela mão esquerda.
Quando os investigadores testaram quais fatores, entre os propostos, pareciam ter peso, as ligações mais fortes com a lateralidade apareceram no tamanho do cérebro e no comprimento relativo de braços e pernas.
Com base nisso, a equipa conseguiu estender o modelo a parentes extintos - como os Neandertais - para avaliar se eles também tenderiam a favorecer uma das mãos.
Neandertais e outros hominíneos: a trilha da mão direita
Dos dados emergiu um padrão interessante, no qual o H. sapiens se encaixa numa tendência evolutiva bem definida.
Ancestrais mais antigos, como Australopithecus afarensis, indicaram apenas uma inclinação discreta para a mão direita. Mas, quando o género Homo entra em cena, esse viés começa a intensificar-se.
No modelo, H. ergaster e H. erectus exibiram preferências crescentes pela direita. Já os Neandertais, os nossos parentes mais próximos, voltaram a apresentar um viés ainda mais forte - perdendo apenas para nós.
Um parente pouco conhecido pode ser a exceção que confirma a regra. H. floresiensis - os chamados “hobbits” da Indonésia - teria mostrado só uma preferência muito pequena por qualquer das mãos, aproximadamente no mesmo nível dos chimpanzés atuais (Pan troglodytes).
Isso pode reforçar a hipótese de que cérebros grandes e bipedalismo impulsionaram a lateralidade. Afinal, esses “hobbits” ainda tinham crânios relativamente pequenos e não teriam abandonado por completo o hábito de subir em árvores.
Em conjunto, os resultados sugerem que essa característica de favorecer uma mão de forma tão marcante se desenvolveu em duas etapas.
Primeiro, os nossos ancestrais passaram a locomover-se de forma ereta, libertando os membros anteriores para outras funções e criando espaço para que as mãos evoluíssem como instrumentos sensíveis de controlo motor fino - algo de que dependemos hoje.
Outros animais também podem manifestar preferências por olhos ou membros de um lado específico. Estudos indicam que, quando isso ocorre, eles tendem a ter melhor desempenho em tarefas relevantes para a sobrevivência. É possível que hominíneos muito antigos também tenham ganho alguma vantagem com esse tipo inicial de “viés” de lateralidade.
Mas, então, por que 90% de nós “escolheríamos” a mão direita, quando a expectativa seria algo próximo a um cara-ou-coroa?
Uma explicação possível está na forma como o nosso cérebro - mais robusto - se organiza, com cada hemisfério a especializar-se em determinadas tarefas. À medida que essa eficiência neural se desenvolveu e os cérebros aumentaram de tamanho, a preferência pela mão direita pode ter ficado “incorporada” ao sistema, configurando a segunda etapa dessa trajetória.
“A mudança locomotora inicial desencadeada pelo bipedalismo pode ser vista como fornecendo oportunidades ecológicas e anatómicas para a especialização manual, enquanto a encefalização pode mais tarde ter reforçado e canalizado ainda mais padrões de lateralização ao nível populacional”, escrevem os investigadores.
“Além disso, a cultura pode ter atuado em paralelo ou amplificado os efeitos dessa trajetória emergente de destreza à direita em hominíneos.”
Os cientistas ressaltam que permanecem questões em aberto - por exemplo, por que ainda existem canhotos e se padrões evolutivos semelhantes aparecem noutros animais com preferência por membros, como papagaios e cangurus.
A pesquisa foi publicada na revista PLOS Biology.
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