Pense em uma palavra cuja aparência combine com o que ela quer dizer.
Por exemplo, a palavra bed lembra um tipo de cama: as hastes verticais podem parecer os pés nas duas extremidades. Já loop tem mesmo um ar de “laço”, de algo enrolado.
Há casos mais discretos, como blizzard: as letras em zigue-zague podem sugerir algo turbulento e desordenado.
O nome disso é "iconicity" e, em geral, esse fenómeno costuma ser investigado no som das palavras. Meow, por exemplo, se aproxima do som que um gato faz. E teeny soa como algo miúdo.
No meu estudo mais recente, eu examinei pela primeira vez a iconicidade na forma visual das palavras em inglês.
O que observei foi que as pessoas reconheciam e interpretavam palavras com mais rapidez e com menos erros quando a palavra, fisicamente, parecia com o seu significado.
Iconicidade: quando a forma visual das palavras em inglês sugere o significado
As letras usadas no inglês (um alfabeto latino herdado do sistema romano) nem sempre foram sinais abstratos: no início, eram símbolos visuais.
É provável que esses sinais tenham raízes em hieróglifos egípcios.
Uma hipótese é que, por volta de 1800–1600 a.C., falantes de uma língua do Norte Semítico tenham adotado esses símbolos e dado origem ao que se chama escrita "Proto-Sinaitic".
Esse sistema recorria a imagens para representar o primeiro som daquilo que estava desenhado - o chamado "acrophony principle". Um exemplo clássico é a nossa letra M, que teria vindo de um símbolo associado à água, aproveitando o som inicial da palavra mayim.
Ao longo do tempo, as letras se transformaram tanto que essa origem antiga já não tem utilidade prática para explicar como lemos inglês hoje.
Ainda assim, há indícios de que o formato das letras guarde alguma relação com os sons que elas costumam representar. Um estudo, por exemplo, reuniu letras associadas aos sons /i/ (como em bee) e /u/ (como em boo) em 56 línguas diferentes e pediu que as pessoas tentassem adivinhar qual conjunto correspondia a qual som.
O resultado foi que os participantes acertaram mais do que seria esperado por puro acaso.
Só que essa não era a minha pergunta aqui. Em vez de investigar se o desenho das letras se conecta ao som das palavras, eu quis saber se esse desenho se conecta ao significado.
Como as letras nasceram como símbolos e o que isso tem a ver (ou não) com hoje
No estudo, eu pedi que participantes avaliassem mais de 3.000 palavras, pontuando (numa escala de um a sete) o quanto a forma das letras parecia combinar com o sentido.
Esse tipo de procedimento é bastante comum na psicolinguística.
Com frequência, pedimos que as pessoas atribuam notas a palavras em apenas uma dimensão - por exemplo, quão concreta uma palavra é, ou quão positiva ela soa - e depois usamos essas avaliações para compreender melhor como o significado é processado.
O primeiro ponto importante é que houve concordância entre os participantes, num nível pelo menos comparável ao que outras propriedades lexicais já mostraram em estudos anteriores.
Entre as palavras com notas mais altas apareceram bubble, look, wiggle, hoop, puppy e bed.
Não é difícil imaginar justificativas para parte dessas escolhas. Puppy pode parecer ter “pernas” e “rabo”. E há algo de ondulado nos dois G no meio de wiggle.
Mas dá para ir além de explicações intuitivas e inferir como, em média, as pessoas tomaram essas decisões? Uma maneira é observar que tipo de palavra tende a receber pontuações maiores.
O que o estudo encontrou: avaliações, padrões e velocidade de processamento
Uma tendência clara é que palavras muito bem avaliadas frequentemente se referiam a coisas que é possível ver. Isso é compatível com a ideia de que os participantes realmente estavam a julgar uma semelhança entre a palavra e o que ela representa.
Ao afunilar mais, apareceu um padrão: quando a palavra designava algo redondo e continha letras mais “redondas” (por exemplo, O, G e C), a avaliação subia.
De modo parecido, quando a palavra se referia a algo pontiagudo e incluía letras mais “angulosas” (como W, Z e X), ela também tendia a receber nota mais alta. Já palavras para coisas pequenas eram, em média, mais bem pontuadas quando tinham menos letras.
No conjunto, esses resultados sugerem que as avaliações de fato capturaram uma correspondência entre o visual da palavra e o seu significado.
Tudo isso é interessante - mas será que faz diferença no processamento?
Para testar isso, usei três bases de dados já existentes que contêm medições de quão rapidamente as pessoas processam palavras isoladas.
Esses conjuntos de dados vêm de estudos que, por exemplo, mostram aos participantes sequências de letras (como spoon ou flarg) e pedem que eles indiquem o mais depressa possível se aquilo é uma palavra real ou inventada.
Nas três bases, encontrei o mesmo padrão: as pessoas foram mais rápidas e mais precisas ao processar palavras cuja forma visual parecia com o seu significado.
Isso continuou verdadeiro mesmo depois de controlar fatores como a frequência de uso da palavra, o número de letras e o quanto é fácil formar uma imagem mental do que ela significa.
Além disso, essas palavras tendiam a ser aprendidas mais cedo.
Tem crescido a noção de que a linguagem é mais do que palavras e significados: ela também envolve tom de voz, gestos e direção do olhar.
A esse conjunto, podemos acrescentar mais um indício subtil: o formato das letras.
David Sidhu, Professor Assistente, Departamento de Psicologia, Universidade Carleton
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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