Por muito tempo, a investigação científica concentrou-se sobretudo em como estradas, cidades e áreas agrícolas influenciam a vida selvagem. Só que os animais não respondem apenas a construções e à expansão humana. Eles também reagem às próprias pessoas.
Uma trilha de caminhada pode parecer igual dia após dia, mas a fauna a percebe de outra forma quando grupos de visitantes atravessam o percurso. A simples presença humana altera como os animais se deslocam, se alimentam e conseguem sobreviver.
Um estudo de grande escala agora deixa claro o quanto a vida selvagem responde às pessoas em diferentes regiões dos Estados Unidos.
Humanos em habitats de vida selvagem
Há décadas os cientistas sabem que animais silvestres ajustam seu comportamento diante de humanos. O problema sempre foi medir essas reações em larga escala.
Para isso, eram necessários dados detalhados do deslocamento diário de pessoas e, ao mesmo tempo, informações de rastreamento de animais na natureza. Essa combinação se tornou possível durante a pandemia de COVID-19.
“Animals are affected by both direct human presence and by human-caused changes to the physical environment, such as agriculture and urbanization,” disse Walter Jetz, professor de ecologia e biologia evolutiva em Yale.
“Este estudo é o primeiro a avaliar diretamente, em escala, como essas duas causas - separadamente e em conjunto - impactam o uso de habitat pela vida selvagem.”
A pandemia expôs o comportamento da vida selvagem
No período da pandemia, dados anonimizados de celulares ficaram temporariamente disponíveis para pesquisadores.
Com os confinamentos, os padrões de deslocamento das pessoas mudaram, e muita gente passou a ficar mais tempo ao ar livre, em parques e áreas rurais.
Esse contexto atípico permitiu separar dois fatores que normalmente andam juntos: onde os humanos constroem infraestrutura e onde, de fato, passam tempo no dia a dia.
Ruth Oliver, autora principal do trabalho, foi pesquisadora de pós-doutorado em Yale e atualmente é professora assistente na UC Santa Barbara.
“Tem sido desafiador capturar o impacto da presença humana sobre a vida selvagem”, afirmou Oliver.
“Dados de dispositivos móveis normalmente não ficam disponíveis, mas nosso estudo só foi possível graças a uma parceria única que forneceu aos pesquisadores estimativas de presença humana durante a pandemia de COVID-19.”
Dados de GPS rastrearam a vida selvagem
A equipe reuniu dados de rastreamento por GPS de 37 espécies animais em todo o território continental dos Estados Unidos.
Entre as espécies analisadas estavam lobos-cinzentos, linces-pardos, águias-carecas, grous-das-colinas, pumas, guaxinins e wapitis.
Ao todo, os pesquisadores analisaram quase 11.8 milhões de localizações de GPS de cerca de 4,581 animais, coletadas ao longo de 2019 e 2020.
O grupo avaliou, semana a semana, quanto território cada animal utilizava e comparou esses padrões com dados diários de movimentação humana e com medidas de longo prazo sobre desenvolvimento e ocupação do solo.
Animais monitoram a atividade humana
Os resultados chamaram a atenção. Mais de dois terços das espécies alteraram o comportamento em resposta à presença humana direta.
No total, 67% dos mamíferos reagiram de maneira perceptível às pessoas, assim como 68% das espécies de aves.
As respostas apareceram em diversos tipos de ambiente e em diferentes grupos, sugerindo que a vida selvagem monitora continuamente a atividade humana e ajusta o comportamento em tempo real.
Presença humana e modificação do habitat
Uma das descobertas centrais envolveu a relação entre a presença de pessoas e a modificação do habitat.
Em muitas espécies, os dois fatores influenciaram o comportamento. Ainda assim, a mesma atividade humana gerou respostas distintas dependendo da paisagem ao redor.
Uma pessoa caminhando por uma floresta remota, por exemplo, pode afetar os animais de um jeito diferente de alguém caminhando em um parque suburbano.
“Nossos achados acrescentam uma nuance importante à compreensão da vida selvagem em um mundo em rápida mudança”, disse Jetz.
Mamíferos reduzem as áreas de deslocamento
A maioria dos mamíferos respondeu aos humanos diminuindo a extensão de área que utilizava.
Linces-pardos, cervos, wapitis e ursos, em geral, estreitaram seus intervalos semanais de movimentação quando havia pessoas por perto.
Essas contrações foram mais fortes em áreas menos desenvolvidas, o que indica que animais que já vivem próximos de humanos podem ter se habituado mais à perturbação.
Os lobos-cinzentos, porém, foram uma exceção marcante. Em vez de reduzir o território, eles o ampliaram quando humanos apareciam nas proximidades.
Os pesquisadores consideram que esse padrão pode refletir uma longa história de perseguição humana.
Aves respondem de forma diferente
Entre as aves, as respostas foram mais variadas. Perus-selvagens, em geral, passaram a usar áreas menores quando a atividade humana aumentava.
Já as garças-brancas-grandes reagiram de maneira distinta conforme estivessem em paisagens mais naturais ou em locais altamente urbanizados.
Para algumas espécies, o desenvolvimento pode deixar poucas alternativas seguras.
Mudanças no uso do habitat
O estudo também investigou como os animais ajustaram a diversidade de ambientes que passaram a utilizar.
Veados-de-cauda-branca ampliaram seu nicho ambiental em paisagens desenvolvidas, mas o reduziram quando havia presença humana física nas proximidades.
De modo geral, espécies mais tolerantes a humanos pareceram mais propensas a usar ambientes modificados, enquanto espécies mais sensíveis recuaram para zonas menores de habitat.
Os autores também buscaram entender se essas mudanças refletiam diferenças populacionais de longo prazo ou ajustes comportamentais de curto prazo.
Animais acompanhados em 2019 e 2020 modificaram seu comportamento conforme os padrões de atividade humana mudaram durante a pandemia.
Ou seja, indivíduos ajustaram suas decisões em tempo real, em vez de permanecerem presos a hábitos fixos.
A conservação precisa considerar o momento
Os resultados trazem implicações relevantes para o manejo e a conservação.
Hoje, áreas protegidas não podem mais ser avaliadas apenas por limites no mapa. O nível de atividade humana dentro desses espaços importa tanto quanto suas fronteiras físicas.
Segundo os pesquisadores, estratégias de conservação deveriam incluir um planejamento de horários mais inteligente e abordagens de gestão flexíveis.
“Habitat loss is the key driver of biodiversity loss, but as we show, human’s direct use of the landscape, say for recreation, also mediates this effect,” disse Jetz.
“Dependendo da qualidade do habitat restante, os animais fazem ajustes comportamentais que amplificam ou reduzem os efeitos negativos da perda de habitat.”
Humanos e vida selvagem dividem o espaço
O estudo também evidencia o quanto ainda falta compreender.
Animais menores foram difíceis de rastrear, e os pesquisadores não conseguiram determinar se as mudanças de comportamento ajudaram ou prejudicaram a sobrevivência no longo prazo.
Mesmo assim, a mensagem mais ampla é direta.
Os animais não estão reagindo apenas a estradas e edificações. Eles estão reagindo a nós. Cada corredor, ciclista, pessoa passeando com cães e caminhante passa a compor o ambiente que a vida selvagem precisa atravessar.
O coautor líder Scott Yanco é ecólogo pesquisador no Zoológico Nacional do Smithsonian e no Instituto de Biologia da Conservação.
“A tecnologia de ponta usada neste estudo nos permite ver, com um nível de detalhe sem precedentes, o quanto as respostas da vida selvagem às atividades humanas são realmente variáveis”, disse Yanco.
“Isso significa que as estratégias de conservação precisam ser muito direcionadas, e não padronizadas para todos os casos.”
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